Entender os motivos para a existência do transporte público não é muito difícil. As pessoas foram trabalhando cada vez mais longe, se reproduzindo cada vez mais, precisando cada vez de mais dinheiro, e tendo cada vez menos espaço físico para todos poderem se locomover de maneira autônoma. A maneira mais autônoma de se locomover, depois de se andar a pé, são os carros.
Falarei do trânsito em outro capítulo. Por vários motivos, não é possível que todos andem de carro e, conseqüentemente, os transporte públicos se fazem necessários. Gosto de pensar isso desde a base para conseguir compreender que não é exatamente uma opção para muitos e isto muda totalmente o ponto de vista das reflexões a seguir.
Falo sobre o transporte público da cidade de São Paulo, onde moro desde que nasci. Veja a cara das pessoas dentro de um ônibus lotado, apertadas e espremidas. Pensando desse ponto de vista, fácil entender porque estão com uma expressão de quem não está nada feliz. Mas pensemos no indivíduo. Como foi a trajetória dele para chegar no lugar em que está. Primeiramente ele precisou esperar por esse ônibus, por muitas vezes em um ponto sem cobertura, com exposição ao sol, chuva, frio, etc. O carro, por mais que precise enfrentar muito mais custos, além do trabalho de dirigir e o estresse no trânsito, ao menos está protegido de muitas dessas variáveis climáticas.
Quando um ônibus lotado chega a uma parada, para quem está de fora, imagina-se que não seria possível sequer uma mosca entrar, porém, feito um passe de mágica, entram 12 pessoas. E isso vai acontecendo ponto após ponto. Quando uma pessoa entra em um ônibus lotado, alguns minutos depois, a pessoa no final do corredor sente que apertou mais, um efeito dominó. O guarda-chuva da senhora atrás dele que antes apenas esbarrava, agora cutuca a sua perna, o perfume da moça à sua frente agora está a poucos centímetros de seu nariz e o sovaco do jovem ao seu lado agora encosta em seu cotovelo.
O que mais me encanta nestas situações são as pessoas que conseguem exercer outra atividade, além de se segurar. Muitos leem livros, brincam com algum jogo eletrônico, até comem! Essas pessoas são muito habilidosas, conseguiram se adaptar de tal maneira ao aperto de um ônibus lotado que fazem coisas que muita gente não conseguiria nem em um ônibus vazio.
Estou sendo superficial e prático para chegar ao meu ponto (coincidência gramatical irônica). Sabendo tudo isso, podemos cogitar que ninguém, ou quase ninguém, está satisfeito com esta situação. Talvez alguém que esteja sentando em um banco ao lado de uma janela, esteja menos infeliz. Aliás, que estranho isso, eu tenho uma sensação boa quando sento neste lugar e já reparei que muitas pessoas também o preferem, acho que é um tipo de trono, elevado e ventilado, longe da plebe que está em bancos mais baixos ou se apertando pelos corredores. Não é à toa que existe aquela expressão popular “quer sentar na janela e ainda cuspir!”...como se fosse vantajoso... Bem, pesquisas apontam que o transporte público mais odiado é o ônibus. Seria difícil convencer alguém dizendo menos amado, pois não se ama esse tipo de coisa, se precisa dela. Aprendi uma coisa usando ônibus lotados: pensamentos intensos nessas horas não fazem bem.
Na maioria das vezes, todas as teorias que formulo, são sobre raiva, desespero de não poder mudar nada, desespero de não saber em quem votei, em quem o povo votou, como se alguma coisa dessas fizesse diferença. Aí entro em questões políticas, questões sócio-econômicas e por aí vai. Viu, já estou filosofando e me desesperando. Como se eu estivesse neste momento tão ou mais espremido que o cidadão em um ônibus lotado.
Passemos agora ao Metrô. Não vou começar um discurso político, até mesmo porque não entendo de política e me considero apartidário, o que já é tomar partido de algo, que é não se preocupar com alguma coisa que acredito não ter solução em nosso país. Por isso me abstenho para tais questões. Política a parte, é nítido que são transportes com investimentos diferentes, bem como o seu funcionamento.
Em resumo, o ônibus tem mais de mil linhas, com mais de 15 mil ônibus e cada um deles com capacidade média de 75 passageiros, sentados e em pé. Isso para a prefeitura, porque nas situações extremas cotidianas, devem caber mais de 200 pessoas por unidade. Já em um Metrô, considerando todos os carros puxados de uma só vez, cabem milhares de pessoas, eu chutaria umas 4 mil. A diferença marcante mesmo é a logística para se pegar o Metrô. Você entra em um túnel cimentado e colorido, passa pela catraca antes mesmo de entrar no vagão e vai para uma plataforma que tem porteiras, como as de gado. Na verdade, em horário de pico, eu gosto de comparar com um matadouro, duas cercas curtas que levam o animal para o sacrifício. No mundo moderno, quando nos ferramos menos do que a maioria, ficamos felizes. Eu me sinto feliz quando pego um Metrô não tão lotado. Ou achamos que estamos felizes. Essa é uma conclusão que cheguei a respeito de quase tudo que pensei até os dias atuais, a busca da felicidade não é individual e sim a busca da tristeza do outro, para nos sentirmos aptos a dizer: “eu sou feliz”. Sim, esse pensamento está errado.
Bem, realmente o Metrô tem menos problemas relacionados ao atraso ou trânsito, mas o desespero para entrar em um vagão lotado é maior do que em um ônibus. O motorista de um ônibus espera todos subirem, ou até que as pessoas desistam porque não cabe mais ninguém, desta vez, de verdade. No Metrô toca uma sireninha maldita e as portas se fecham, não importa se você entrou ou não. Isso dá um desespero danado e a boiada se empurra, como se fossem fugir do sacrifício. O efeito dominó toma metade do tempo para chegar às pessoas que estão longe das portas, porque são muito mais portas do que em um ônibus.
Mas para se divertir mesmo, só ouvindo os anúncios que fazem nos alto-falantes: “Se você não vai descer na próxima estação, não fique na região das portas” ou “A venda de produtos dentro dos vagões é ilegal, denuncie!”. Quem criou essas frases nunca andou de Metrô, tenho certeza absoluta disso. Vá dizer à mocinha com a cara amassada contra a porta para ela sair de lá porque ela não vai descer na próxima estação. Ou peça para alguém apontar o dedo para um vendedor ambulante a um segurança e veja a cara das pessoas a sua volta, que possivelmente tem as mesmas ou piores condições de trabalho que o rapaz. Outra coisa interessante e quase que imperceptível é o estupro manual.
Praticamente todas as partes dos corpos estão se tocando quando o vagão está lotado, inclusive as íntimas, separadas apenas por duas calças e talvez duas roupas de baixo. Mas repare que quando duas mãos se tocam, parece que deu um choque, tamanha velocidade com que se afastam! As mãos são sagradas nos transportes públicos, inclusive as leves que levam carteiras sem que ninguém perceba. Mas a pior selvageria que acontece realmente é o empurra-empurra na hora de entrar e sair. Os mais fortes empurram os mais fracos para que abram espaço, como se fossem um escudo. Acredito que a selvageria está dentro de todos, mas o que define um selvagem de um não-selvagem é o valor que a pessoa atribui para deixar isso extravasar versus os valores da sociedade. E o valor atribuído é chegar logo em casa, para não perder a novela.
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