sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Vale Tudo, o Poder do Consentimento

O Vale Tudo basicamente é uma demonstração de força, seja física, mental ou técnica. Quando eu era adolescente, costumava assistir e ficava impressionado com a violência, mas impressionado num bom sentido, eu realmente gostava de ver os lutadores se espancando, sem saber porque. Após alguns anos assistindo, comecei a tentar entender por que eu gostava disso, ver um ser humano causando dor a outro ser humano. Cheguei a achar que eu era sádico, mesmo não sendo eu o causador do sofrimento. Ou será que eu era o causador de tanta dor?

Pensando logicamente, estes eventos precisam de patrocínio, e para isso, precisa-se de uma quantidade razoável de público assistindo, eu, no caso. Indiretamente, o sofrimento causado dentro do ringue é causado por quem assiste.

Acredito que a sociedade nos pressiona e irrita tanto, que quando podemos extravasar, aproveitamos, mesmo que seja apenas nos deleitando com sofrimento alheio. Sim, as pancadas distribuídas são de quem está assistindo, eu e todo mundo que assiste está espalhando violência na mídia. Assim como muitos outros eventos (filmes, jogos de videogame, programas de TV, até mesmo os noticiários que selecionam as notícias de acordo com o interesse do público), mas vou focar neste porque acredito que seja o mais cru de todos, o contato direto entre duas pessoas em um pequeno espaço físico e de tempo, com objetivo de definir quem é o mais forte.

Falando assim até parece que estamos falando da lei do mais forte da natureza, dos machos Alfa e das espécies mais agressivas e estratégicas. A supervalorização do masculino na sociedade pode ser o motivo para tanto sucesso do Vale Tudo, aliás, o nome diz tudo, pode-se usar de várias maneiras de destruir o outro, não vale tudo realmente, mas a conquista é baseada em quem conseguiu usar a melhor técnica, munida de força. Aplicando essa idéia no cotidiano, o dinheiro é uma das melhores estratégias de conseguir ser o melhor num grupo.

Em geral, estas lutas são assistidas por maioria masculina, claro que os hormônios estão ligados a este fato, mas entendo que precisar admirar um homem que destrói outros reflete na vontade que os homens têm de se sobrepor na sociedade, de vencer, de se ter sucesso, de se ter uma ereção, de pagar as contas, porque são cobrados disso por tudo e todos. A lista é bem longa, mas o básico da minha linha de pensamento se baseia no limite a que os seres humanos precisam chegar para impressionar outros, ou nesse caso, se impressionarem.

Além disso, tem algo muito importante que ainda não citei, que sem ele não seria possível haver o Vale Tudo: o perdedor. O título deste post é o início de tudo. O principal motivo de não sentirmos culpa ao assistir alguém apanhando até dizer chega (literalmente) e incentivar isso, é o fato deste indivíduo estar lá porque escolheu estar. Não importa quais os motivos dele, se quer ser o melhor lutador, se é um sonho de criança competir, se quer provar algo à alguém, se precisa muito do dinheiro para o transplante de rim do pai, o que interessa é que ele permitiu que alguém batesse nele para que possamos admirar.

O pior de tudo? Eventualmente eu ainda assisto e não consigo efetivamente achar ruim!  E é pior mesmo, porque sinto que cheguei tão perto de encontrar alguma resposta, mas não consegui. Não consegui vencer a luta com a minha mente, ou talvez realmente vivemos em uma sociedade sádica, que ri quando vê alguém tropeçando na rua, que torce pra patinadora errar e escorregar no gelo, que aguarda os melhores momentos da corrida de carros para ver um possível acidente. Ora, se a maioria é assim, então estatisticamente estou dentro da normalidade.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Deus

Eu sempre escrevi Deus com letra maiúscula, simplesmente porque sempre via escrito assim. Há alguns anos questionei isso e parei de usar o D maiúsculo, por pensar que a escrita foi inventada pelo homem e, se foi este quem criou este respeito por Deus, eu não me vi na obrigação de escrever assim, uma letra não define meu respeito por algo ou alguém e sim a minha crença. Recentemente, pensando melhor, decidi usar novamente com letra maiúscula, não por respeito a ele, mas porque é um nome próprio, pensando em regra gramatical mesmo.

Isso parece uma discussão besta, mas pensar sobre esta questão, ainda na adolescência, me fez questionar a existência de Deus. Não que eu ache que ele não exista, mas eu questiono essa forma que as grandes religiões criaram. Não consigo imaginar um homem barbudo que mora no céu e que criou o homem à sua imagem, muito menos representado por um homem “iluminado”. A maioria das religiões pregam idéias semelhantes: Deus é onipresente, onisciente e onipotente. Ora, se ele é tão perfeito, como teria criado uma espécie com tantos defeitos como a nossa à sua imagem? Pode até ter criado, mas esta teoria se contradiz na essência e prova que não se inspirou nele próprio.

Analisando as definições:
Onipresente: se ele está em todos os lugares, ao mesmo tempo e em todas as formas, não deveria existir templos religiosos sagrados, afinal, se ele está em todo canto, todo canto é sagrado. Outra coisa é rezar olhando pra cima, não faz sentido!

Onisciente: se ele sabe tudo sobre nós, uma reza não precisa ser padronizada, nem ao menos falada em voz alta (ou ajoelhado). Pedir desculpas por algo não é necessário, uma vez que ele sabe que realmente nos sentimos arrependidos. Aliás, a culpa é um assunto para uma postagem a parte. Falar sobre ele poderia e deveria ser uma atitude aberta, sem medo de se cometer uma blasfêmia, afinal, se você disser ou não em voz alta, ele já sabe o que você pensa!

Onipotente: deixei este por último porque resume a minha indignação com pessoas que acham que têm algum poder sobre Deus. Sim, foi isso o que eu disse, muita gente acredita que pode ser abençoada, punida ou até mesmo santificada por ele, mas não enxerga que quem faz isso são os homens, eles que escolhem o que vão fazer com a humanidade (o nome é auto-explicativo). Se Deus quisesse, já teria melhorado o mundo há muito tempo. E pare de dizer “se Deus quiser”, porque se você acredita nele neste formato, você deveria acreditar também em livre arbítrio, ou seja, por essa lógica, quem faz o seu destino é você. Ah não? O destino já está escrito? Pior ainda, se já está escrito, não precisa se preocupar em mudar alguma coisa.

A maioria das religiões se baseia em fatos históricos, em escrituras que foram feitas há muitos anos. Se, com a globalização com uma quantidade absurda de meios de comunicação, temos dificuldades em saber a verdade de um fato, imagine com fatos que aconteceram há milhares de anos e poucos eram os que sabiam ler e escrever (geralmente, os poderosos). Na minha opinião, se registrava apenas o que interessava na época. Não tenho dúvida de que Jesus, Buda, Moisés e semelhantes eram seres além de sua época, mas a demanda do momento era muito específica, estava-se em busca de uma salvação, não importa de onde viesse. Sei que Budismo não é religião e sim uma filosofia, mas se atribui religiosidade quando se fala a respeito do Buda. Em minha humilde opinião, Leonardo da Vinci deveria ser contemplado como um desses, seguindo este raciocínio.

Enfim, este é um assunto para mais posts, mas resolvi começar com Deus, na minha opinião, a base de todas as religiões, independente da imagem a qual lhe é dada.
É muito difícil ser cético e acreditar que este universo em que vivemos surgiu do acaso num Big Bang da vida, e que a evolução cuidou de tudo sozinha, sem dono, porém é mais difícil ainda acreditar nas religiões do jeito que são.
Eu acredito que alguma força rege sim o mundo, só não sei ainda se nomeio de Deus, Natureza, força sobrenatural ou algo do tipo, o que sei é que nós, os homens, somos seres insignificantes no universo e, sendo assim, não temos capacidade para entender algo tão grande, temos capacidade apenas em ter fé, ou seja, achar. É o que estou fazendo aqui, questionando, mas tendo a humildade de admitir que não tenho certeza de nada. Já é um bom começo.