Já virou clichê falar mal dos políticos, assim como das
pessoas que os elegem, mas eu gostaria de publicar o meu relato. Tive a
infelicidade de trabalhar como mesário por seis vezes, sendo que uma delas foi
aquele plebiscito sobre o desarmamento. Digo infelicidade porque fui obrigado a
acordar muito cedo nos domingos de eleição e passar 10 horas no meu posto de
trabalho gratuito involuntário.
Admito que fui uma dessas pessoas que diz que é um absurdo
eleger uma pessoa ignorante, analfabeta, ladra etc., mas ser mesário me fez
mudar meu ponto de vista. Me fez entender que, por mais que ache estar longe de
ser alguém que ganha um excelente salário, more em um ótimo bairro, faço parte
da elite falsa moralista brasileira. E não precisa muito para isso, basta ler e
escrever sem dificuldade e estar minimamente informado sobre as notícias
importantes do momento, além de ter um emprego dito decente.
No meu posto, tínhamos aproximadamente 400 pessoas para
votar, mas geralmente 300 compareciam. Posso afirmar que menos de 30% estavam
conscientes do voto, o restante acabava encontrando diferentes meios de decidir
em quem votar. Não foram poucas as vezes que as pessoas perguntavam para nós em
quem deveriam votar. Obviamente éramos proibidos até de dizer nome de
candidato, mesmo a pessoa sabendo seu número.
Até aqui, pareço seguro de que a culpa de termos políticos
incompetentes é do “povão”, certo? Mas esta é uma opinião que ainda não consegui
definir, talvez por ser uma questão que anda em círculos em que o político se
apropria do dinheiro direcionado para a educação, por exemplo, o povo continua
ignorante e, por conseqüência, volta a elegê-lo, por falta de informação.
Mas o que não consigo entender é porque o povo continua
votando nas mesmas pessoas se elas sofrem durante 4 anos! Sempre imagino que
nas próximas eleições as pessoas vão se lembrar das dificuldades que passaram
com os serviços públicos: as horas esperadas na fila do hospital, professores analfabetos,
servidores públicos constantemente em greve, transporte público vergonhoso,
entre vários outros. Mas acho que a memória some quando ela entra na sala de
votação e o que vem na cabeça é: “E agora, em quem eu voto? Afinal, é obrigatório.”
e o primeiro nome que vem na mente, é o que ela vota. O problema é que esse
nome surgiu em seu pensamento provindo de notícias sobre escândalos, ou no boton mais bonito que ela recebeu antes
de entrar na escola em que vota, distribuído ilegalmente, a famosa Boca de
Urna. Depois de ser mesário que eu entendi a importância da Boca de Urna.
A pessoa define boa parte de seus próximos 4 anos de acordo
com o Marketing que envolve um nome ou um número.
No final das contas, acabo acreditando que o povo tem
sentimentos sádicos mesmo, talvez para ter assunto para falar, ou preencher
lacunas nos noticiários. O que eu sei é que eu mesmo, elite intelectual
brasileira, não sei em quem votar, por falta de interesse, ou até mesmo falta
de credibilidade nas informações que são publicamente divulgadas.
Eis que você, caro leitor, pensa: “Então pra que ele criou
este post?”. Eu explico. Acho que
devemos expor nossas dúvidas para que outras pessoas que pensam de forma
parecida sintam que não são as únicas e, por algum motivo, crie ou descubra uma
maneira de resolver este problema. Sou a favor dessas ONGs que promovem discussões
sobre política, mas o fato de já serem partidárias me incomoda, mesmo achando
difícil que exista alguma entidade apartidária. Aliás, tomar partido é se
inteirar sobre as propostas dos candidatos, mas com o tempo que precisamos
perder por causa dos problemas que temos com os serviços públicos, a vontade
que resta é chegar em casa e assistir a minha TV a cabo elitista.