Este é um tema complexo, tanto do ponto de vista ético e moral, quanto sócio-histórico. Vou tentar desmantelar tanta explicação e resumir em alguns parágrafos como entendo o assunto, porque me considero inocente o suficiente para poder opinar sem me sentir mal. Digo isso porque acredito que a sociedade impôs de tal maneira que tenhamos cuidado ao falar sobre qualquer tipo de deficiência física, que sempre achamos que estamos falando algo errado. Acredito que esta cultura até tenha seu mérito.
A minha tia é cega, não enxerga nadinha. Sempre foi difícil entender o mundo em que ela vive, realmente porque é o que parece, outro mundo. Acredito que a cegueira é uma das deficiências mais temidas pelas pessoas, talvez porque a modernidade está nos deixando dependentes da estética. Aliás, acho que estética é o ponto chave para se discutir a deficiência. Não consigo imaginar um cego com preconceito em relação a alguém que tem uma deficiência “visível”. Acho que o que mais incomoda é nos imaginar na posição do outro, então preferimos não olhar para nem pensar.
O preconceito ainda é o mesmo, com a diferença que não se pode falar sobre ele. Não tenho uma maneira melhor para lidar com isso como sugestão, mas não concordo com o modo que é feito. Obrigar empresas a contratar pessoas nessa condição, mas não dar suporte educacional lá atrás, é a mesma coisa que obrigar alguém a cozinhar, dar os ingredientes, mas sem dar a receita. Mas as pessoas que enfrentam tantas dificuldades por muitas vezes conseguem tirar proveito da situação e criam receitas próprias, com muito mais sal, açúcar e pimenta! Que bom que o ser humano tem o dom de conseguir se superar!
Eu acho interessante como é difícil tentar imaginar a vida sendo um deficiente físico. É simples entender como um cadeirante se sente em frente à uma escada do ponto de vista prático, mas imaginar que por anos ele se confronta com isto, é praticamente impossível, o impacto é totalmente outro. Pequenas mudanças já dificultam sentir a pele do outro, como um grau de miopia, uma perna um centímetro maior que a outra, 5 quilos a mais... enfim, estes são alguns motivos que me fazem acreditar que a deficiência física é apenas uma pequena diferença, mas que pode ter conseqüências de grande intensidade em quem as possui. Já vi casos de pessoas que não conseguem mover nenhum dos membros, mas que “sentem” menos falta do que alguém que não move um único membro. É muito complicado entender o tamanho da ferida de outra pessoa, por isso não me dou o direito de tentar descobrir o que é pior ou não, mas sim entender o porquê de tentarmos o tempo todo fazer isso. Talvez esse tipo de pensamento ajude a diminuir o preconceito.
O que acontece é que estamos desacostumados com o diferente, além de termos uma cultura de precisar achar uma resposta pra tudo, então sempre corremos atrás de fatos que nos mostrem como não somos preconceituosos. Isso pode acarretar em um sério problema, pode-se pensar que, só porque certa pessoa tem uma determinada deficiência, ela necessariamente precisa de ajuda o tempo todo, para fazer qualquer coisa. É com bastante freqüência que pessoas com deficiências apenas físicas sejam “atrasadas” em seu desenvolvimento psíquico, porque a sua aparência gera, de alguma maneira, dó e necessidade de assistencialismo.
Por muitas vezes, são pessoas adultas, com comportamentos infantilizados, por culpa de quem as cerca. O problema é que a família é a base da educação para muitas pessoas com deficiência, porque a própria casa é onde se passa maior parte do tempo, devido à dificuldade de locomoção pela cidade. Há uma quantidade enorme de discussões a respeito da educação, se a escola tem direito ou obrigação de educar um cidadão, mas nesse caso, acredito que a família sem orientação age da mesma maneira ou pior na educação de seus filhos com necessidades especiais. Aliás, este nome Necessidades Especiais acho que resume bem o que estas pessoas precisam. Quando digo que posso opinar sem me sentir mal, não quer dizer que não sinto nada. É muito complicado escrever para um mundo onde tudo precisa ser politicamente correto, ao menos na hora de publicar algo. O preconceito existe sim na cabeça de todos, com a diferença que existe reconhecimento ou não.
Quando me refiro a “essas pessoas” admito que me sinto mal, mas ao mesmo tempo percebo que isso é preconceito de minha parte, uma vez que eu falaria normalmente assim sobre outras classes de pessoas, altas, baixas, gordas, magras, etc. O fato de saber disso, já me é de grande alívio e sinto-me livre de boa parte de culpa. Principalmente porque escrevo com admiração dos deficientes físicos.
Algumas pessoas conversam sobre as deficiências, mas “escolhendo” qual tipo preferiria ter e por quais motivos, pra passar o tempo mesmo. Eu já acho que isso é impossível, assim como a história do cadeirante em frente a uma escadaria. Não é fácil saber o que nos aflige, imagine sobre o outro!