terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A Deficiência Física

Este é um tema complexo, tanto do ponto de vista ético e moral, quanto sócio-histórico. Vou tentar desmantelar tanta explicação e resumir em alguns parágrafos como entendo o assunto, porque me considero inocente o suficiente para poder opinar sem me sentir mal. Digo isso porque acredito que a sociedade impôs de tal maneira que tenhamos cuidado ao falar sobre qualquer tipo de deficiência física, que sempre achamos que estamos falando algo errado. Acredito que esta cultura até tenha seu mérito.
A minha tia é cega, não enxerga nadinha. Sempre foi difícil entender o mundo em que ela vive, realmente porque é o que parece, outro mundo. Acredito que a cegueira é uma das deficiências mais temidas pelas pessoas, talvez porque a modernidade está nos deixando dependentes da estética. Aliás, acho que estética é o ponto chave para se discutir a deficiência. Não consigo imaginar um cego com preconceito em relação a alguém que tem uma deficiência “visível”. Acho que o que mais incomoda é nos imaginar na posição do outro, então preferimos não olhar para nem pensar.
O preconceito ainda é o mesmo, com a diferença que não se pode falar sobre ele. Não tenho uma maneira melhor para lidar com isso como sugestão, mas não concordo com o modo que é feito. Obrigar empresas a contratar pessoas nessa condição, mas não dar suporte educacional lá atrás, é a mesma coisa que obrigar alguém a cozinhar, dar os ingredientes, mas sem dar a receita. Mas as pessoas que enfrentam tantas dificuldades por muitas vezes conseguem tirar proveito da situação e criam receitas próprias, com muito mais sal, açúcar e pimenta! Que bom que o ser humano tem o dom de conseguir se superar!
Eu acho interessante como é difícil tentar imaginar a vida sendo um deficiente físico. É simples entender como um cadeirante se sente em frente à uma escada do ponto de vista prático, mas imaginar que por anos ele se confronta com isto, é praticamente impossível, o impacto é totalmente outro. Pequenas mudanças já dificultam sentir a pele do outro, como um grau de miopia, uma perna um centímetro maior que a outra, 5 quilos a mais... enfim, estes são alguns motivos que me fazem acreditar que a deficiência física é apenas uma pequena diferença, mas que pode ter conseqüências de grande intensidade em quem as possui. Já vi casos de pessoas que não conseguem mover nenhum dos membros, mas que “sentem” menos falta do que alguém que não move um único membro. É muito complicado entender o tamanho da ferida de outra pessoa, por isso não me dou o direito de tentar descobrir o que é pior ou não, mas sim entender o porquê de tentarmos o tempo todo fazer isso. Talvez esse tipo de pensamento ajude a diminuir o preconceito.
O que acontece é que estamos desacostumados com o diferente, além de termos uma cultura de precisar achar uma resposta pra tudo, então sempre corremos atrás de fatos que nos mostrem como não somos preconceituosos. Isso pode acarretar em um sério problema, pode-se pensar que, só porque certa pessoa tem uma determinada deficiência, ela necessariamente precisa de ajuda o tempo todo, para fazer qualquer coisa. É com bastante freqüência que pessoas com deficiências apenas físicas sejam “atrasadas” em seu desenvolvimento psíquico, porque a sua aparência gera, de alguma maneira, dó e necessidade de assistencialismo.
Por muitas vezes, são pessoas adultas, com comportamentos infantilizados, por culpa de quem as cerca. O problema é que a família é a base da educação para muitas pessoas com deficiência, porque a própria casa é onde se passa maior parte do tempo, devido à dificuldade de locomoção pela cidade. Há uma quantidade enorme de discussões a respeito da educação, se a escola tem direito ou obrigação de educar um cidadão, mas nesse caso, acredito que a família sem orientação age da mesma maneira ou pior na educação de seus filhos com necessidades especiais. Aliás, este nome Necessidades Especiais acho que resume bem o que estas pessoas precisam. Quando digo que posso opinar sem me sentir mal, não quer dizer que não sinto nada. É muito complicado escrever para um mundo onde tudo precisa ser politicamente correto, ao menos na hora de publicar algo. O preconceito existe sim na cabeça de todos, com a diferença que existe reconhecimento ou não.
Quando me refiro a “essas pessoas” admito que me sinto mal, mas ao mesmo tempo percebo que isso é preconceito de minha parte, uma vez que eu falaria normalmente assim sobre outras classes de pessoas, altas, baixas, gordas, magras, etc. O fato de saber disso, já me é de grande alívio e sinto-me livre de boa parte de culpa. Principalmente porque escrevo com admiração dos deficientes físicos.
Algumas pessoas conversam sobre as deficiências, mas “escolhendo” qual tipo preferiria ter e por quais motivos, pra passar o tempo mesmo. Eu já acho que isso é impossível, assim como a história do cadeirante em frente a uma escadaria. Não é fácil saber o que nos aflige, imagine sobre o outro!

O Transporte Público

Entender os motivos para a existência do transporte público não é muito difícil. As pessoas foram trabalhando cada vez mais longe, se reproduzindo cada vez mais, precisando cada vez de mais dinheiro, e tendo cada vez menos espaço físico para todos poderem se locomover de maneira autônoma. A maneira mais autônoma de se locomover, depois de se andar a pé, são os carros.
Falarei do trânsito em outro capítulo. Por vários motivos, não é possível que todos andem de carro e, conseqüentemente, os transporte públicos se fazem necessários. Gosto de pensar isso desde a base para conseguir compreender que não é exatamente uma opção para muitos e isto muda totalmente o ponto de vista das reflexões a seguir.
Falo sobre o transporte público da cidade de São Paulo, onde moro desde que nasci. Veja a cara das pessoas dentro de um ônibus lotado, apertadas e espremidas. Pensando desse ponto de vista, fácil entender porque estão com uma expressão de quem não está nada feliz. Mas pensemos no indivíduo. Como foi a trajetória dele para chegar no lugar em que está. Primeiramente ele precisou esperar por esse ônibus, por muitas vezes em um ponto sem cobertura, com exposição ao sol, chuva, frio, etc. O carro, por mais que precise enfrentar muito mais custos, além do trabalho de dirigir e o estresse no trânsito, ao menos está protegido de muitas dessas variáveis climáticas.
Quando um ônibus lotado chega a uma parada, para quem está de fora, imagina-se que não seria possível sequer uma mosca entrar, porém, feito um passe de mágica, entram 12 pessoas. E isso vai acontecendo ponto após ponto. Quando uma pessoa entra em um ônibus lotado, alguns minutos depois, a pessoa no final do corredor sente que apertou mais, um efeito dominó. O guarda-chuva da senhora atrás dele que antes apenas esbarrava, agora cutuca a sua perna, o perfume da moça à sua frente agora está a poucos centímetros de seu nariz e o sovaco do jovem ao seu lado agora encosta em seu cotovelo.
O que mais me encanta nestas situações são as pessoas que conseguem exercer outra atividade, além de se segurar. Muitos leem livros, brincam com algum jogo eletrônico, até comem! Essas pessoas são muito habilidosas, conseguiram se adaptar de tal maneira ao aperto de um ônibus lotado que fazem coisas que muita gente não conseguiria nem em um ônibus vazio.
Estou sendo superficial e prático para chegar ao meu ponto (coincidência gramatical irônica). Sabendo tudo isso, podemos cogitar que ninguém, ou quase ninguém, está satisfeito com esta situação. Talvez alguém que esteja sentando em um banco ao lado de uma janela, esteja menos infeliz. Aliás, que estranho isso, eu tenho uma sensação boa quando sento neste lugar e já reparei que muitas pessoas também o preferem, acho que é um tipo de trono, elevado e ventilado, longe da plebe que está em bancos mais baixos ou se apertando pelos corredores. Não é à toa que existe aquela expressão popular “quer sentar na janela e ainda cuspir!”...como se fosse vantajoso... Bem, pesquisas apontam que o transporte público mais odiado é o ônibus. Seria difícil convencer alguém dizendo menos amado, pois não se ama esse tipo de coisa, se precisa dela. Aprendi uma coisa usando ônibus lotados: pensamentos intensos nessas horas não fazem bem.
Na maioria das vezes, todas as teorias que formulo, são sobre raiva, desespero de não poder mudar nada, desespero de não saber em quem votei, em quem o povo votou, como se alguma coisa dessas fizesse diferença. Aí entro em questões políticas, questões sócio-econômicas e por aí vai. Viu, já estou filosofando e me desesperando. Como se eu estivesse neste momento tão ou mais espremido que o cidadão em um ônibus lotado.
Passemos agora ao Metrô. Não vou começar um discurso político, até mesmo porque não entendo de política e me considero apartidário, o que já é tomar partido de algo, que é não se preocupar com alguma coisa que acredito não ter solução em nosso país. Por isso me abstenho para tais questões. Política a parte, é nítido que são transportes com investimentos diferentes, bem como o seu funcionamento.
Em resumo, o ônibus tem mais de mil linhas, com mais de 15 mil ônibus e cada um deles com capacidade média de 75 passageiros, sentados e em pé. Isso para a prefeitura, porque nas situações extremas cotidianas, devem caber mais de 200 pessoas por unidade. Já em um Metrô, considerando todos os carros puxados de uma só vez, cabem milhares de pessoas, eu chutaria umas 4 mil. A diferença marcante mesmo é a logística para se pegar o Metrô. Você entra em um túnel cimentado e colorido, passa pela catraca antes mesmo de entrar no vagão e vai para uma plataforma que tem porteiras, como as de gado. Na verdade, em horário de pico, eu gosto de comparar com um matadouro, duas cercas curtas que levam o animal para o sacrifício. No mundo moderno, quando nos ferramos menos do que a maioria, ficamos felizes. Eu me sinto feliz quando pego um Metrô não tão lotado. Ou achamos que estamos felizes. Essa é uma conclusão que cheguei a respeito de quase tudo que pensei até os dias atuais, a busca da felicidade não é individual e sim a busca da tristeza do outro, para nos sentirmos aptos a dizer: “eu sou feliz”. Sim, esse pensamento está errado. 
Bem, realmente o Metrô tem menos problemas relacionados ao atraso ou trânsito, mas o desespero para entrar em um vagão lotado é maior do que em um ônibus. O motorista de um ônibus espera todos subirem, ou até que as pessoas desistam porque não cabe mais ninguém, desta vez, de verdade. No Metrô toca uma sireninha maldita e as portas se fecham, não importa se você entrou ou não. Isso dá um desespero danado e a boiada se empurra, como se fossem fugir do sacrifício. O efeito dominó toma metade do tempo para chegar às pessoas que estão longe das portas, porque são muito mais portas do que em um ônibus.
Mas para se divertir mesmo, só ouvindo os anúncios que fazem nos alto-falantes: “Se você não vai descer na próxima estação, não fique na região das portas” ou “A venda de produtos dentro dos vagões é ilegal, denuncie!”. Quem criou essas frases nunca andou de Metrô, tenho certeza absoluta disso. Vá dizer à mocinha com a cara amassada contra a porta para ela sair de lá porque ela não vai descer na próxima estação. Ou peça para alguém apontar o dedo para um vendedor ambulante a um segurança e veja a cara das pessoas a sua volta, que possivelmente tem as mesmas ou piores condições de trabalho que o rapaz. Outra coisa interessante e quase que imperceptível é o estupro manual.
Praticamente todas as partes dos corpos estão se tocando quando o vagão está lotado, inclusive as íntimas, separadas apenas por duas calças e talvez duas roupas de baixo. Mas repare que quando duas mãos se tocam, parece que deu um choque, tamanha velocidade com que se afastam! As mãos são sagradas nos transportes públicos, inclusive as leves que levam carteiras sem que ninguém perceba. Mas a pior selvageria que acontece realmente é o empurra-empurra na hora de entrar e sair. Os mais fortes empurram os mais fracos para que abram espaço, como se fossem um escudo. Acredito que a selvageria está dentro de todos, mas o que define um selvagem de um não-selvagem é o valor que a pessoa atribui para deixar isso extravasar versus os valores da sociedade. E o valor atribuído é chegar logo em casa, para não perder a novela.

Entendendo o meu mundo

Acredito que a maneira que pensamos é, em grande parte, influenciada pelo meio em que vivemos. Na Psicologia existe um termo que gosto muito, o bio-psico-social, cujo nome já diz tudo. Como não posso ser mais de uma pessoa, nem viver em diferentes ambientes ao mesmo tempo, muito menos ter acesso à mente de ninguém, vou contar um pouco de mim durante meus pensamentos.

Início

Acredito que todas as pessoas pensam o dia inteiro. Dentre estes pensamentos, existem os superficiais, os práticos e os intensos, sendo este último o mais freqüente em minha mente, talvez o motivo de me fazer surtar.
Toda e qualquer opinião expressada aqui é resultado de experiências de vida, sejam elas reais ou fantasiosas, idéias que vou tendo e tenho a cada momento. Talvez o caro leitor ache meu texto um pouco bagunçado (talvez muito), mas se é a tradução do meu pensamento, nada mais justo expressar na ordem em que apareceram e formaram a presente idéia.
Voltando aos tipos de pensamento, falemos sobre os superficiais. Estes acontecem quando estamos diretamente conectados com objetos físicos, como pensar na combinação de peças de roupa, o momento em que aguardamos abrir o sinal no trânsito, quando colocamos água em um copo. Apesar de serem superficiais, podem se transformar em práticos ou intensos, ou até mesmo permear ambos. Bem provável que isto não vá dar em nada, mas talvez não seja esse o objetivo, acredito que filosofar sobre algo lógico e já definido por natureza (ou não) seja simplesmente exercitar o pensamento. Por isso que tem gente que não surta como eu, porque entende ser inútil pensar em algo desse tipo. Durante muitos anos da minha vida pensei ser um castigo intensificar tudo ao meu redor, e ao que não está ao meu redor também, mas depois de um tempo aprendi a simplesmente deixar acontecer.
Os pensamentos que chamo de práticos são aqueles obrigatórios para a nossa sobrevivência, são similares aos superficiais, mas com um caráter, como diz o nome, mais prático. Pensar sobre a combinação de peças de roupa não fará com que a pessoa sobreviva, vide as tradicionais “peruas” vagando por aí. Se vestir já é algo prático, algo necessário. Com algumas exceções, geralmente as pessoas trabalham vestidas e isto dificilmente será mudado. Acredito que o pensamento prático é mais superficial que o próprio pensamento superficial, pois a nossa necessidade por muitas vezes nos impede de pensar diferente, é rígido. O superficial, ao menos, garante a possibilidade de variar.
Por último, mas não menos importante (adoro essa expressão; tão lógica, mas tão auto-explicativa...), é o pensamento intenso. Com ele é possível sair da razão e, após uma grande viagem, voltar a ela. É possível não voltar nunca mais, assim como é possível chegar lá, odiar, e voltar correndo para a realidade. Se bem que a realidade é o meu ingrediente predileto, quanto mais real, mais eu viajo. E nessas viagens tenho experiências tão completas, que as consigo trazer à minha realidade e assim, fico mais aliviado de poder ter pensado sobre este ou aquele assunto.
Tudo que falei até agora, provavelmente, foi chover no molhado, correto? Sim, está correto! O que pretendo fazer aqui é chover no molhado, mas de diferentes maneiras, seja em garoa, chuva, tempestade, granizo. O que importa não é o tipo de chuva e sim a maneira que nos protegemos dela ou até mesmo, saímos desprevenidos para ter o prazer de senti-la nos molhando, corroendo.